É uma coisa procurar quarto em Firenze. Uma coisa.
Por quê? Porque acha-se tudo que é preço e tudo que é quarto.
Um quarto singolo custa de 300 a 500 euros, e um quarto doppio custa de 200 a 350 euros por pessoa. Não menos que isso.
É isso mesmo, pelos mesmos 300 euros você pode achar com um quarto só pra você ou um pra ter que dividir com alguém que você nem conhece. Mas digamos que, na média, seja 250 doppio e 350 singolo.
O que varia: o tamanho do quarto, a localização, o estado do quarto e dos móveis. Principalmente os 2 primeiros. Os apartamentos no centro histórico são mais caros mesmo. Mas não pense que é regra, não! Tem muito quarto caro e longe! Tem quarto barato que é bagulho, aliás é o que mais tem.
Outras vezes, o quarto é até OK, mas a pessoa é maluca.
É pior que procurar carro usado. Meu vô dizia que carro usado não se olha a cor. Então, é muito difícil achar um quarto do jeito que a gente quer, por um preço que se possa pagar. Daí a minha insegurança quando encontro um quarto que eu gostei-mas-não-muito: eu não sei se estou sendo exigente demais, ou se é a minha intuição dizendo que aquele lugar não é pra mim. E o medo de deixar passar, porque o quarto não entra em um dos pré-requisitos, e depois não encontrar outro melhor e pensar “devia ter ficado com aquele mesmo”. Por duas vezes eu aluguei no desespero um lugar que não era bem o que eu queria, porque me bateu esse medo na hora, e eu me arrependi amargamente. Sem força de expressão.
Dessa vez, apesar dessas incertezas, a única certeza que eu tinha era a de que eu poderia e deveria procurar com calma, já que estava na casa da Clara e não tava pagando nada.
Comecei procurando quarto doppio, pra economizar. Mas acabei chegando à conclusão que uma diferença pequena de dinheiro só ia me arrumar sarna pra me coçar. Um dos maiores problemas que eu via em dividir o quarto com alguém era a questão do barulho: de eu ficar até tarde no skype e querer falar por voz, de eu precisar estudar ou dormir e a pessoa fazer barulho ou vice-versa. Mas o que me fez desistir mesmo foi eu pensar que isso poderia me atrapalhar para trabalhar no computador. Daí eu comecei a só ver anúncio de quarto singolo.
Teve um que era de uma brasileira que mora aqui há 13 anos. Trabalha fazendo limpeza em casa de família, falava português misturando muitas palavras e expressões em italiano. Ela tinha um cachorro fofo salsichinha. O quarto era arrumadinho, mas minúsculo (uns 2x3m). Achei que estava caro pra um quarto daquele tamanho e que por aquele preço eu conseguia coisa melhor.
Teve outro que era pra morar com uma colombiana. A localização era ótima, perto de onde tenho aula e também da mensa. O quarto era ajeitadinho, mas não tinha janela e a porta era sanfonada, aberta em cima. Não isolava em nada o barulho. Eu até achei que tudo isso era passável, quando lembrei que ela tinha um chihuahua, cachorro chato que latia sem parar enquanto eu tava lá (ele tava preso no quarto). Quando aquele cachorro começasse a latir eu não ia poder nem fechar a porta. Broxei.
Outro foi um húngaro que estava aqui na casa da Clara numa noite, era conhecido da colega de casa dela, a romena Neila (ou algo assim). A Neila é legal, o cara eu achei meio esquisito. Mas ele falou que tinha um quarto vago e estava alugando por 250 (que é MUITO barato pra quarto singolo), barato porque ele tinha um bebê e moravam eles dois e a mulher dele. Era um pouquinho longe, mas valia a pena olhar. Fui ver no dia seguinte: o quarto era até ajeitadinho, tinha uma beliche, armário, janela grande. Mas primeiro, a casa do cara fedia. O quarto não tinha mesa, mas ele falou que ia colocar. A porta era sanfonada sem tranca, ele falou que ia trocar. E começou a enumerar um monte de coisas que ia mexer, parecia que estava tentando me impressionar ou convencer, em um italiano bem ruim. Disse que a mulher com o filho estava viajando, mas o cara tinha cara de sujo, me atendeu sem camisa, disse que tinha acabado de acordar e não tinha nem lavado a cara.
Depois foi fazer um café e perguntou se eu queria. Eu disse que não, mas ele pôs a xícara mesmo assim e foi fazer o café. Depois trouxe um maço de cigarro e me ofereceu. Eu disse que não queria, ele insistiu como se eu estivesse recusando por educação, e eu fui ficando impaciente. Disse que não queria porque não fumava, e ele perguntou “ué, mas por quê?” Eu já fui finalizando a conversa e dizendo que tinha que ir embora, e ele foi olhar na geladeira alguma coisa pra oferecer, pegou um iogurte e pôs na mesa, mesmo eu dizendo que não queria. Eu levantei dizendo que tinha mesmo que ir embora e ia pensar sobre o quarto. Saí de lá aliviada, quase correndo. Só um pouco pesarosa, porque o quarto era bom e barato. Mas morar com gente louca, não mais.
O quarto que mais gostei, de todos que eu vi em Firenze desde o início, era um quarto grande e lindo, com uma mesona e janelão, super iluminado por ser no terceiro andar. Só que nesse, o esquema era diferente. Eu disse que estava interessada, ela pegou meu nome e telefone (e anotou algumas coisas sobre mim) e disse que iriam escolher até o dia seguinte, e ligaria. Tipo entrevista de emprego mesmo. Não ligaram.
Ainda bem, acho, porque no dia seguinte um cara de quem eu tinha visto um anúncio e mandado um e-mail me ligou, perguntando se eu ainda estava interessada e que era melhor eu ir ver logo, porque tinha mais gente interessada. Era um singolo de 260, ou seja, um achado. Eu fui na hora. O quarto estava meio feinho, não era muito grande mas também não minúsculo. Um tamanho suficiente. O quarto ser velho me fez querer pensar, mas eu resolvi que com um toque feminino ali, se resolvia. Não é em pleno centro, mas é próximo, e o mais importante: fica perto do Coop (o mercado barato).
Liguei pro cara no fim do dia e achei que estava tudo certo. Ele falou que me ligava no dia seguinte pra eu ir conhecer as outras meninas que moram lá também. Quando eu fui, ainda rolou um suspense. Eu chego lá e tem outro cara vendo o ap também. Depois ele foi embora, eu falei com elas, gostei delas, e eu achando que estava fechado, quando elas me dizem que iam escolher a pessoa até o fim da tarde.
Sabe quando você vai em uma entrevista e tem certeza que o cargo é seu, mas não dá pra saber ainda porque não confirmaram? Igualzinho. Pra minha alegria, logo que eu cheguei em casa me ligaram dizendo que tinham me escolhido e eu poderia mudar na sexta.
E é essa minha situação agora. Tomara que tudo dê certo até lá!