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A Crise

(teclado sem acentos)

Desemprego, recessao. Ofertas de trabalho gratis em troca da “generosa oportunidade de adquirir experiencia”. Ofertas de escambo, geralmente de serviços. Essa é a situaçao da Italia hoje, e so vem piorando, ao menos desde 2009 quando eu cheguei aqui.

O que piorou desde entao? A Crise (com c maiuscula, a Crise ja virou uma entidade à qual se atribuem todas as mazelas da vida) ja tinha estourado em 2008, mas ninguém fez muito a respeito por aqui. A coisa foi piorando, Berlusconi saiu, entrou um novo governo para por ordem na casa e ao mesmo tempo a Europa chamou a Italia na chincha (vamos deixar os outros paises de lado aqui): é melhor fazer alguma coisa, nega! A crise nao vai embora sozinha. Disse a Europa.

A Italia precisa de dinheiro. Ora, quem é que paga as dividas de uma nacao? O povo. Como? Com impostos. Entao adivinha o que aconteceu? Viver hoje està mais caro que 3 anos atras. Eu gasto mais no mercado comprando as mesmas coisas. As contas em casa vem mais altas, consumindo a mesma coisa. Hoje eu mal tinha acordado e minha colega de ap vem me dizer que o aluguel vai aumentar mes que vem. E o salario, ò.

A Europa é a classe media-alta do mundo. Nao é à toa que a nossa classe media/media-alta sempre idolatrou a Europa: rola uma identificaçao. Do pòs-guerra até o começo do século 21, viveu-se muito bem por aqui. Todo mundo comprou sua casa propria, sua casa na praia, muitas vezes no exterior, fez um bom pè-de-meia, ganhou-se muito dinheiro.

Mas o mundo està vivendo uma reviravolta. Aquela ideia da minha geraçao, de ir para a Europa (também vamos deixar os EUA de lado por ora) para ganhar muito dinheiro e voltar para o Brasil rico, também ja foi ultrapassada. Hoje fala-se muito, e ja tem gente, mirando no Brasil, na Russia e na China, como potenciais lugares para fazer negocio. Fala-se em ir para la. E eu fico vendo tudo isso e acompanhando, de fora, o momento de ascensao do Brasil. E vivendo, na pele, os efeitos da crise, com aquela sensaçao nada boa de que estou sempre no barco que està mais furado!

Dramas à parte (porque eu nunca vim pra cà para fazer dinheiro, e meu objetivo real està sendo realizado), voltemos à Crise que nao vai embora sozinha. E à posiçao confortavel que a Italia viveu até entao. Bom, a real é que viver na “selva” tem la suas vantagens. Voce aprende a sobreviver, por bem ou por mal. Essa metafora é infinita, pode ser a favela, a guerra, o Terceiro Mundo, uma area de trabalho competitiva: situaçoes extremas em que, por sobrevivencia, voce tem que aprender a superar as dificuldades.

Até hoje, viveu-se aqui sem precisar se preocupar muito. A geraçao passada nao precisou lutar muito para conseguir aquela vida. Bastava abrir um negocio e ele andava; uma loja, um restaurante, e os clientes vinham. Aì vem a Crise e os clientes nao vem mais voluntariamente: voce precisa atrai-los. E quem nao se liga nisso, seja por comodismo ou ignorancia, culpa a Crise, o governo, o Papa (literalmente), mas nao move a bunda da cadeira para tentar novas possibilidades. Daì eu ter que explicar para a minha chefe por que um panfleto sem mapa e com site e telefone desatualizados pode ser jogado no lixo, e por aì vai. Porque antes nao precisava de nada disso: marketing, publicidade, estratégia de venda. A publicidade daqui é horrivel, aliàs me dei conta recentemente de que sequer existe faculdade de publicidade.

E’ uma geraçao que nao comprou o proprio imovel e nem vai comprar. Porque pode morar no dos pais, e porque hoje os preços sao impraticaveis, mais ainda para quem vai, quem sabe, herdar um negòcio, mas nao vai querer trabalhar de sabado e domingo. E é como disse a Marcela, uma argentina que tem uma loja em Firenze e de onde saìram muitas dessas reflexoes: vai precisar que aquele dinheiro, o da geraçao anterior, acabe, e que o  trabalho – e o sucesso do proprio negocio – vire uma questao de sobrevivencia mesmo. Mas a maioria deles vai quebrar antes de saber o que sao estratégias de marketing, porque sequer vao saber por onde começar.

E’ claro que, falando de 60 milhoes de pessoas, hà exceçoes. Que trabalham muito e ganham o dinheiro merecido. Mas eu acho que esse quadro geral reflete a realidade, uma realidade da qual eu prefiro nao fazer parte. Mas até o ano que vem, vou ter que fazer.

Itália, este lindo país falido – II

O post anterior ficou muito grande e acabei não mencionando por que resolvi escrever sobre isso. É por causa das ofertas de trabalho escravo.

É mais ou menos assim: o povo dono de empresa aqui está se aproveitando da crise e da imensa oferta de mão-de-obra, principalmente de jovens recém-formados sem experiência, para oferecer postos de trabalho em troca de… nada. Assim mesmo, como se fosse um imenso favor, oferece uma vaga na própria empresa para aquele jovem que não sabe fazer nada poder adquirir alguma experiência, e chamam aquilo de estágio.

No Brasil, quem é da área de saúde já está acostumado. Ou então das agências de publicidade (até onde sei — me corrijam se eu estiver errada). Mas fora isso, CARA! Quando eu falei que estágio no Brasil era pago, ainda que o salário seja mais baixo, mas *existe* um salário, o povo aqui fica besta.

E na universidade? Pensa que é diferente? Um terço dos meus professores não ganha nada. É mais ou menos assim: para ser professor precisa prestar concurso e precisa haver vagas. Enquanto isso não acontece, o professor se inscreve para participar de uma seleção e, se aceito, começa a dar aulas “em caráter gratuito”, e isso dá a ele alguma vantagem quando participar do concurso para a vaga de professor propriamente dita.

E pensa que quem faz isso é só professor recém-formado? Alguns desses já têm anos de estrada, são muito muito bons, têm uma lista imensa de artigos publicados. Como eles sobrevivem, eu já não sei.

Eu recebo uma newsletter de um fórum on-line que tem e lá participam os estudantes de Firenze. Veio uma chamada assim: “milhares de ofertas  de trabalho para estudantes”. Fui abrir e lá, um monte de tranqueira. E é assim, muito anúncio lixo, alguns quase indecentes, e as próprias pessoas aqui se revoltam. Recebi outra newsletter que deveria ser de anúncios de emprego de verdade, e lá estava: “stage non retribuito”. Um cara até deixou um comentário pedindo mais respeito, pois aquilo era um espaço para profissionais.

E sempre vai ter alguém que vai preferir trabalhar de graça para pegar alguma experiência, porque é melhor do que nada, então a coisa não vai ter fim nunca, se nada mudar neste lindo país falido. Talvez quando o Berlusconi e sua corja saírem, mas só a ausência deles não vai bastar, vai precisar mais que isso.

Trabalho na Itália

Hoje eu voltei a distribuir panfletos para o mesmo café para o qual trabalhei no semestre passado. É bom trabalhar de novo! Melhor dizendo, bom ter uma fonte de renda mais garantida. Ainda que pouco.

Porque trabalhar, eu tenho trabalhado. Graças aos céus (como dizem aqui), tem vindo freela do Brasil (!!!) pra eu fazer (valeu, Ale e Gê). Mas tá fraco e incerto ainda, e se trabalhar como freela já é incerto, estando aqui é mais ainda, porque mesmo que precisem de alguém, a distância dificulta as coisas porque só pode ser trabalho que possa ser feito remotamente e nem sempre é o caso.

Então, dada a escassez, continuo procurando algo aqui. Na minha área ou não. Pra isso até reformei o portfólio, com a intenção de enviar currículo para as empresas, coisa que ainda não consegui fazer. E enquanto isso, retomei o trabalho no café, que é pouco em quantidade e grana, mas já vai ajudar.

Já falei isso aqui e para algumas pessoas, mas vale reforçar: emprego na Itália é muito difícil. Tá saturado. Até os subempregos estão saturados. Posso falar de Florença, mas vejo as pessoas falando do resto do país também. Você consegue um bom cargo com indicação de alguém.

Não existe perspectiva. A perspectiva que nós temos no Brasil. Eu vejo pessoas da minha idade, mais velhas ou mais novas, que trabalham desde sempre como garçonete, encanador, marceneiro, secretária, e não têm previsão de quando vão deixar de fazer essas coisas. Que estão estudando, mas para estudar alguma coisa, não porque esperam fazer alguma coisa com aquilo. A gente, se começa a trabalhar em subemprego, quer estudar para um dia sair daquilo. Aqui eu não vejo tanto isso. Tem, mas é mais raro.

É por isso – também – que eu quero voltar para o Brasil quando me formar. Aqui eu não tenho chance.

Não só pela saturação do mercado, mas também porque eu estou um nível abaixo do das meninas que estudam comigo. Explico. O primeiro motivo é que o estudo da arte está totalmente ligado à cultura, à história e à geografia italianas, coisa que eles aprendem desde que estão na escola, em casa, etc. O segundo é que muitas dessas pessoas fizeram o liceo artistico, que é uma das áreas de ensino médio que se pode escolher. Infelizmente nós só temos humanas, exatas, biológicas, etc. Ainda não temos um “artistico”. Quem sabe um dia.

Daí que eu tenho que ralar pra chegar no nível que é o normal deles, e isso vai me tomar alguns anos. Eu tô estudando arte italiana só há 1 ano e já avancei pra caramba! É quando a gente aprende que percebe o quanto não sabia, né? E para prosseguir com isso no Brasil, acredito que tenho muito mais campo.

Histórias de uma volta

Os preparativos para uma viagem tão longa são muitos. Alguns são bons, outros são um pé no saco.

Fazer as malas é um pé no saco. Eu tinha que decidir o que iria levar, o que iria ficar na Itália, ONDE iria deixar as minhas coisas, e fazer tudo caber nas minhas duas malas e uma mochila. Depois de algumas viagens e mudanças, peguei uma boa manha de como fazer a mala.

Tinha também que providenciar xerox e livros que pudesse precisar para estudar no Brasil, providenciar lembrancinhas pro meu povo e ir ao mercado para comprar algumas coisinhas que queria trazer pro Brasil: trouxe 4 pacotes de macarrão Barilla, 1 pacote de café pra acompanhar minhas machinettas Bialetti – uma herdei da Juni e a outra comprei numa promoção -, e o mais importante, 5kg de queijo parmesão, “exigência” do Alex (por quê: ele levou queijos inocentemente pro Brasil quando voltou, foi parado pela alfândega e os fiscais, digamos, ficaram com um rico café da manhã. Ele chora a perda dos queijos até hoje).

A volta
Tive algumas surpresas nada agradáveis com a Alitalia. Primeiro, chego para fazer o check-in e sou informada pela funcionária que eu teria que pagar uma diferença de tarifa, pois a tarifa de estudante que eu havia comprado só era válida até 26 anos. Não adiantou me revoltar, nem dizer que na ida não tinha tido problema, nem que aquilo não fazia sentido. Tive que ir até a bilheteria, a menina estava falando com meio mundo sem conseguir resolver e perguntou se eu conseguia falar com a minha agência.

SORTE que eu resolvi por mais crédito no celular, mesmo sendo meu último dia na Itália. SORTE que eu consegui falar com o Alex pra ele pegar pra mim o telefone da STB. SORTE que eu tinha imprimido as passagens, mesmo eles dizendo que estava tudo no sistema e que bastava apresentar o passaporte. SORTE que ainda era horário comercial na STB.

Falei com a agente e ela pediu para eu ligar em 15 minutos. Nesse meio tempo, a menina da bilheteria continuava tentando resolver. Já xingando meio mundo mentalmente e me imaginando pagando a diferença e brigando com a agência depois, perguntei:

- Mas se eu tiver mesmo que pagar a diferença, de quanto é?

- Não sei, eu não estou conseguindo nem achar a sua tarifa aqui. Se eu não conseguir nada, para embarcar você vai ter que comprar outro bilhete.

- Outro bilhete INTEIRO?!

- Sim, e até as 18h30. – A essa altura eram 17h40.

Passado o tempo, liguei de novo e a Danielle, atendente da STB, tinha conseguido falar com a Alitalia Brasil, que colocou 2 linhas na minha reserva, dizendo que a tarifa de estudante deles era até 35 anos. Na hora eu confirmei com a funcionária da bilheteria, que viu o aviso, e já falou com o check-in e me disse para ir lá direto.

Ufa.

Chego no ckeck-in, é outro funcionário. Falo pra ele brevemente do problema, ele confere e está tudo bem. Coloco as malas pra despachar, e o infeliz vira e fala:

- Ah, você vai ter que pagar excesso de bagagem. Suas malas estão com 30kg cada uma, o limite é de 23kg.

- GRRRRRRR.

Aí eu explodi, explodir em italiano não é nada fácil, falei que aquilo não era possível, que a Alitalia Brasil tinha me assegurado que o limite eram 32kg, que eu tinha acabado de ter outro problema com a Alitalia e blablabla, e já estava preparando o telefone para ligar de novo na STB.

Nisso a funcionária do lado falou pra ele que para vôos originados no Brasil (o meu vôo era “volta” e não “ida”), o limite eram 32kg. Ele não confiou muito, e ligou pra mais umas 3 pessoas que confirmaram.

- Ah é, tem razão, são 32kg.

- VAI PRA PUTA QUE O PARIU, seu filho da puta, esse tipo de coisa não se fala pra um infeliz passageiro que está com 2 malas cheias indo para uma viagem de 11 horas, as pessoas se preparam para uma viagem desse tamanho, e você tem que no mínimo se informar antes de dizer uma estupidez para o passageiro.

Isso era o que eu devia ter falado na hora, mas só fiquei aliviada, fiz uma cara de “eu te disse” e agradeci, já bem impaciente com a burrice e falta de respeito.

O vôo
Ah, foi uma maravilha, na medida do possível. Nos dois aviões eu fiquei na última fila, na janela, sem ninguém do meu lado. O jantar estava uma delícia, um capeletti 4 queijos quentinho (ao contrário da ida, que tinha um frango com milho com gosto de papelão). Ouvir só brasileiros dentro do avião e até o comissário falando português me deu uma sensação muito gostosa.

A chegada ao Brasil
Foi meio caótico. Eu peguei outros 2 vôos internacionais chegando junto, então adivinha: uma fila imensa pra passar na polícia federal. A fila dos estrangeiros estava muito menor! O bizarro é que, quando entrei nos países europeus, era sempre o contrário. Brasileiro só se f*de!

Foi tanto tempo que, quando chegamos para pegar as malas, metade já estava no chão, fora da esteira. Peguei as malas, na alfândega foi só passar e eu estava livre, leve e com meus queijos.

Falo sobre o momento pós-chegada no próximo post.

Mudando de casa

Que coisa maluca isso. Dizer ao seu coinquilino que vai mudar de casa dá a mesma sensação que dizer ao seu chefe que está pedindo demissão. Você hesita, ensaia, pensa nas melhores palavras, posterga, até um momento que não dá mais.

A idéia de mudar de quarto existe há algum tempo, mas culminou com a vinda próxima do Alex pra cá. Eu comecei a achar que num quarto pequeno, num apartamento pequeno, as coisas iriam ficar desconfortáveis.

Comecei a procurar quartos que custassem ou a mesma coisa, mas que fossem maiores, ou pelo menos do mesmo tamanho mas mais barato (o que era possível). A Junia e a Clara (a taiwanesa que mora comigo) também estavam insatisfeitas com seus respectivos quartos, então outra idéia veio: a de alugarmos um apartamento nós três.

Até vimos alguns, mas é MUITO difícil achar apartamento, como em qualquer lugar, acho: que o preço entre no seu orçamento, a localização seja razoável (vejam que eu não disse “boa”), que aceite alugar para estrangeiros, que aceite alugar por 6 meses (as três vamos embora em junho), enfim. O maior agravante descobrimos depois: a maioria dos apartamentos para alugar só achamos em imobiliárias, e imobiliárias cobram 1 mês de aluguel de COMISSÃO. Diferente do depósito, que serve como garantia e você recebe de volta depois, seria um dinheiro que iria embora.

Cheguei à conclusão que pagar comissão para imobiliária, para alugar por 6 meses só, não valia a pena, mas isso dificultou muito a procura. Nesse meio tempo, sugeri outra coisa para a Junia: que a gente alugasse um apartamento de 2 quartos, sendo 1 singolo e 1 doppio, a Clara ficaria no singolo e nós duvidiríamos o outro e pagaríamos menos.

Daí que começamos a procurar também camera doppia para alugar e acabamos achando esse.

Oficialmente eu tinha que avisar com 2 meses de antecedência e o cara estava viajando. Não teve jeito, tive que ligar pra ele (depois da novela que foi decidir ligar) e foi tudo bem.

O porquê desse medo eu explico. Aqui é muito comum as pessoas alugarem ou sublocarem os quartos sem contrato, assim como pedir 1 ou 2 meses de aluguel como depósito, que é devolvido quando a pessoa sai. É algo quase inevitável, a gente não tem muita opção, então todo mundo que aluga assim tem um pouco de medo de que a pessoa invente qualquer motivo e não devolva o dinheiro, ou devolva só parte dele.

Esse tipo de relação baseado em confiança meio que faz parte da cultura deles, bem diferente de nós, o que faz que a gente fique ainda mais desconfiado. Mas em geral as pessoas não têm problema, não.

Agora preciso que alguém queira alugar aqui a partir de janeiro, que é quando mudo para o novo quarto. Mas dele eu falo em breve.

Nápoles (adendo sobre o guardinha do trem)

Foi na volta de Pompéia, pegando o trem. A gente comprou o bilhete na bilheteria e fomos para a plataforma. O trem para Nápoles estava passando a cada 1h, e o próximo era para dali uns 15 minutos.

O trem chegou e aí nos demos conta de que na plataforma em que a gente estava não tinha a maquininha para validar o bilhete. Aí, no bilhete, tem um espaço para validar “na mão”, dizendo que, na falta de uma máquina para validar, basta pedir para um funcionário do trem validar para você com caneta. Foi o que fizemos (e eu estava tranquila, afinal o Andrea era de lá).

Subimos e fomos até o fiscal. O trem demora uns 4 ou 5 minutos para sair. Em vez de ele validar, começou muito grosseiramente a dar uma bronca porque não tínhamos validado na estação, apesar de o Andrea explicar que não tinha máquina daquele lado. Ele até perguntou sobre a validação “na mão” que estava escrita no bilhete, mas o cara não quis saber, dizendo que aquilo era só para quando a máquina estivesse quebrada ou não tivesse MESMO.

Nisso, o trem saiu e ele se pôs a esbravejar e dizer que teríamos que descer na próxima estação, e que ficássemos felizes porque evitamos uma multa de 40 euros. Eu, que com o guarda falando rápido com aquele sotaque napolitano e o barulho infernal que fazia dentro do trem, não entendi metade do que ele tinha falado, voltei a questionar sobre a validação na mão*, e aí ele emendou num mini-sermão sobre estrangeiros que vão para outro país sem saber falar a língua. Eu fiquei realmente p*ta da vida, porque não tínhamos feito nada de errado.

Não sei o que aconteceu, se por ele ter visto que estávamos mesmo dispostos a descer na próxima estação (e esperar 1h pelo próximo), se porque não discutimos muito, ou se bateu o peso na consciência, e ele com cara feia resolveu voltar atrás e validou nosso bilhete, resmungando alguma coisa.

*Porque aqui na Itália eles parece que têm muita dificuldade de se comunicar entre si… Parece que a regra é discordar, antes de mais nada. Então acontece muito de você ter razão, e ter que brigar por isso. O serviço fecha às 13h, você chegou 12h30 e não querem mais te atender? Tem que brigar. O velho passa de bicicleta reclamando dos pedestres que andam na rua, cuja calçada tem 40cm? Xinga de volta. Tantas coisas que já vi e passei! hahah… Dava um livro.

Ferraris

É surreal estar na Itália. De verdade. É surreal ir ao Uffizi e ver de perto O Nascimento da Vênus de Boticcelli, a Medusa do Caravaggio, o Tondo Doni de Michelangelo. Ir à Santa Croce e ver de pertinho os afrescos de Giotto.

Surreal também é estar passando na rua se deparar com uma exposição de… Ferraris!

Diante de uma obra de arte, o público sequer ousa se aproximar, e admira só de longe! :-P

Diante de uma obra de arte, o público sequer ousa se aproximar, e admira só de longe! :-P

Confira todas as fotos aqui.

Parla italiano?

Ah, o italiano… Eu sempre gostei. Devia ter uns 16 anos quando comprei meu Michaelis Português-Italiano, quando comecei a praticar a tradução de músicas. E só 10 anos depois fui começar a fazer aula mesmo.

Uma das coisas mais bonitas no italiano são os conceitos “empolgados” das palavras. Eu explico.

Qualquer carro não é um simples carro, é uma macchina (“máquina”). Se a pessoa é bonita, eles dizem que é bella. Se a pessoa é boa em fazer algo, ela é brava (por isso, quando querem dizer “muito bem!” a alguém, dizem “bravo!”). Se digo que gosto de alguma coisa, digo que essa coisa mi piace (piacere é prazer, ou seja, essa coisa “me dá prazer”).

É legal porque eles usam a gramática correta, então usam a segunda pessoa tu para tratamento informal e a terceira pessoa Lei para formal (como quando dizemos “o senhor” ou “a senhora”). Mais ou menos quando era nos tempos aristocráticos, antes de chegar o “vossa mercê” que virou “vosmecê” e depois “você” (que hoje já virou “cê” heheh). É como usar as coisas para aquilo que elas foram feitas, não como o nosso tu e vós, que só servem pra encher linha de caderno na hora de aprender a conjugar o verbo.

Fato: ajuda muito saber gramática em português para entender gramática em outra língua!

È veramente una bella lingua!


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Blog criado para contas as minhas aventuras em Florença, Toscana, Itália. Para quem ficou no Brasil poder viajar um pouquinho comigo, e eu com eles.

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